Monday, November 06, 2006

O amor romântico:
Significa para a mulher a sua subjugação polida e consentida.
Significa para o homem o poder e controle social dos sentimentos.
O último passo da emancipação da mulher implica a emancipação dos seus sentimentos - impostos pela sociedade. Daí que este último passo, para se concretizar, tenha como necessária condição a morte do amor romântico, que tem 200 anos.

3 comments:

Anonymous said...

Achei curiosa a posição que adoptaste, ao considerares sem grandes rodeios, que a certidão de òbito do amor romântico tem data marcada. Data incerta...mas marcada!
Provavelmente terás razão...se te apoiares,por exemplo, em estudos científicos que postulam o "prazo de validade" do amor romântico em cerca de um ano. Ao que consta, o tal "amor romântico" só ocorre devido a um expoente de proteínas, as neutrofinas, que após um ano tendem a diminuir.
Mas e se não nos cingirmos à vertente biológica? Será que tens razão?Talvez seja prematuro assinarmos o obituário do amor...
Vamos por partes...ainda há "esperança de vida" para algum tipo de amor romântico? Haverá esperança para o "Eros", o "Ludus", o "Storge", a "Mania", o "Pragma" ou para o "Agape"?Ou estarão todos confinados a perecer brevemente?
E se concebermos o amor sob a perspectiva de Platão ou de Marcel Proust?Dessa forma o amor seria o desejo por algo que não se possui (completamente)...Assim sendo, e considerando que no amâgo da essência humana está a vontade incontornável de desejar sempre algo que não possui,será esta perspectiva suficiente para "reanimar" o amor?
Curiosa é também a tua posição algo Kunderiana no que concerne aos papéis de género no amor...Será que se coadunam com a realidade? Certamente que com algumas realidades sim, embora noutras, as dimensões estejam alternadas ou mesmo substituídas.
No fundo tudo isto poderá ser irrelevante...principalmente se tal como eu, considerarmos uma perversão a tentativa de dissecar a palavra "amor". Irónico?!?
Embora exista a ausência saudável de consenso, só gostava de apelar à esperança...Não passemos certidões de óbito ao amor...
Bxo
Elizabeth

Dinarte Vasconcelos said...

Obrigado, Elizabeth, pelo teu comentário erudito.
Todavia, devo dizer que não defendi que o óbito do amor romântico tem data marcada e, muito menos, que o amor, suponho que em geral, tem os seus dias contados. Digo, sim, apenas, que o amor romântico, aquele nascido no século XIX - do qual colhemos abundantes exemplos literários na melhor novelística oitocentista portuguesa (Camilo Castelo Branco e tal...), e que impregna o relacionamento amoroso actual - tem raízes fundas numa certa subalternização da mulher em relação ao homem, numa certa imagem que aquela adopta perante a sociedade, e que corresponde a certos convencionalismos sociais - de uma mulher vulnerável, frágil, submissa. Considerando que, em grande parte, os movimentos de emancipação feminina tentam lutar contra a imposição destes esquemas sociais, daí extraio que o amor romântico definhará irremediavelmente com a total emancipação da mulher - se atingida...
Espero não ter dado a imagem - errada - de excessiva misoginia.
Já agora, por que razão constitui uma perversão dissecar a palavra amor? Que fizeram Proust ou Kundera?
O amor, esse, não tem certidão de óbito, considero eu. Morre quando morremos. Nasce quando nascemos.
Abraço
Dinarte

Anonymous said...

Antes de mais gostaria de clarificar que em momento algum conjecturei qualquer tipo de misoginia da tua parte.Deixemo-la para Schoppenhauer ou Nietzsche.Arrisco-me até a inferir que terás mais características de filogino...
No que concerne à questão do dissecar o amor constituir uma perversidade, julgo que tal dependerá do objectivo com que o fizermos.Se o intuito for encontrar uma verdade absoluta e universal para o mesmo, aí não tenho qualquer tipo de pudor em considerar que tal constituí uma perversão.E possivelmente terá sido na teia desse equívoco que me deixei prender...
No entanto, e como entendo o amor como um processo de aprendizagem contínuo e incessante,considero deveras interressante tomar conhecimento da perspectiva de outros. Como cada perspectiva é fruto de viviências peculiares e distintas das minhas, tenho algum interesse em saber o que pensam Descartes, Platão, tu ou qualquer outra pessoa com cada uma das suas idiossincrassias. O visualizar algo perante olhares (muitas vezes díspares dos nossos), mediado com a dose certa de receptividade e crítica proporciona o abranger de novos horizontes. E eu tenho sede de abranger esses novos horizontes...
Bxos
Elizabeth