Monday, October 26, 2009

chego a casa

andam espectros na noite
digo eu que sobejo no meu quarto

entra pelas fissuras da persiana
a escuridão em vagas de fumo

apago as luzes e fico
quieto calado enorme

inalo a escuridão respiro fundo
e consumo os espectros

até ficar sem cor sem ossos sem pele
até um relâmpago apagar-se

Friday, October 23, 2009

"nightwalkers are the loneliest of men"
diz o vigilante da noite
a medir as gradações da luz
que polvilha a cidade de carvão

no entanto - são os mais perigosos
que mundo há na vigília da noite
para além da ressonância do pensamento

há uma ebriedade que assoma num murmúrio
cantado dentro de uma redoma de vidro

de tanto ouvir a sua própria voz
o vigilante rejeita toda a melodia

que não seja feita de luz da noite artificial
e soletrada pelo vidro opaco

Tuesday, July 14, 2009

há momentos em que estou
no crepúsculo da sanidade

ou o fio parte
ou engulo o novelo

um dia destes encosto
um revólver à fonte

e espero para ver
de que lado sopra a brisa

do crepúsculo sobra
um fio de luz

ou o fio esvai-se
ou engulo o revólver

de qualquer modo
não me aborrece insistir

quando nada há cá dentro
acabar-se a sanidade

parece ser uma boa atitude
um excelente acto

qualquer dia cavalgo
o crepúsculo até ao outro lado

ou caio das alturas
ou degolo o meu cavalo

e vou finalmente
encontrar alguma paz

finalmente poderei
conhecer o meu mestre

Thursday, June 25, 2009

esta centelha
aninha-se numa combustão lenta

um decilitro de gasolina
apenas a apagaria

[na noite uivam os cães
anunciando a morte à solta]

e eu aqui grávido
de palavras vagarosas

e dos avanços e dos retrocessos
nos aforismos e nas conclusões

tudo é igual - e tudo opõe-se
no antes e no depois

desta centelha
não vem cinza nem carvão

um sopro de voz húmida
apenas a apagaria

Tuesday, April 28, 2009

e mais uma palavra
é simplesmente uma palavra a mais

inevitável uma solidão
- uma mais pura solidão
de olhos que queimam o
descanso em todas as cores -

há um tempo sonolento
nesta cidade de fuligem
queimada do carvão
dos meus olhos

resta o esforço
de aproximação inocente
às ruas e aos minutos

ou não resta nada

Friday, March 20, 2009

quem me dera ser um pulha
daquela raça adormecida

uns olhos de cão tinhoso
a afiar a navalha numa esquina da cidade

apanhar despercebido o outro
e fazê-lo cuspir-me de ódio e nojo

ir de sorrateiro e corpo mole
galopando o pardo da noite

deixar de mim memórias
e ter companheiros e fiéis de várias hordes
pedir uma criança carinho a um pai
será como rogar por água na terra ressequida

[não há enxada que sirva
quando o pó é esquivo]

um pai concede a camaradagem
quando surge a estação certa

bem avançados somos nós
na confusão que fazemos de tudo

à mãe a primavera e o verão
ao pai o outono e o inverno

à mãe o tempo árduo e o alarme
ao pai a brisa vaga e o descanso

Wednesday, March 11, 2009

ganhei a sabedoria atrevida dos velhos precoces
e enfim já não brotam os poemas

debito as palavras como de bengala na mão
o outro braço circunscrevendo arcos largos

não tenho rugas - já tenho rugas
[e mãos quentes e moles]
e já não sei calar as palavras ufanosas

tudo serve de rastilho
para o meu entumescimento