O calceteiro, cabisbaixo,
prega a pedra, lá no fundo.
Lume transpira a sua garganta
e seu peito desdenha
os que com desprezo lhe olham.
“Hei-de vos vencer
quando, com vossos olhos,
contemplardes o despeito que me deitais,
inscrito nestas pedras que colo...
Elas hão-de troçar de vós
(como a mim, que sou seu pai)
e até ao fim estarão;
nelas tocareis –
serão vosso final repouso e alvura,
tão certo, negrura, quanto o vosso desdém.”
Sou um calceteiro:
salvai-me da noite dos tempos!
---
O filósofo, sob a proverbial luz,
prega a premissa em lado nenhum.
Fogo transpira a sua garganta,
e seu peito desdenha
os que com admiração o olham.
“Hei-de vos ferir
quando, com vossos lábios,
recitardes os penedos que vos deito,
inscritos nestas palavras que colo...
Elas hão-de vos encontrar
(não a mim, seu pai e padrasto)
e ainda para as encontrar pedireis;
nelas não tocareis –
serão vosso final tormento, negrura, engano,
tão certo, alvura, quanto o vosso assombro.”
Sou um filósofo:
salvai-me da ribalta dos tempos!
Friday, November 03, 2006
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3 comments:
Olá Dinarte,
Por aqui lê-se os teus escritos, com agrado.
Um abraço,
Rodrigo
Caro Rodrigo
Agradeço o seu comentário.
Tenho pena é que o link que me deixa (que me levaria a um blogger profile) redunde em erro, digamos assim; deste modo, não posso por agora retribuir a sua visita.
Abraço
Dinarte
Que pena Viana não ter calçadas, que pena não terem quem as cante tão sublimemente!
Que pena não se encontrarem pessoas capazes de perceber "calçadas", mas apenas de pisarem calçadas… Desdém… desdém de quando perecemos e só a obra fica!
Um abraço de “Biana”!
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