Saturday, November 17, 2007

Do lucro e do logro

“– Por amor de Deus [...], ainda está por provar o que é mais nojento: se a conduta indecorosa russa ou o método alemão de acumulação mediante o trabalho honesto.
[...]
– Preferia ser nómada e viver numa tenda quirguize toda a vida [...] do que venerar o ídolo alemão.
[...]
– O ídolo do método alemão de acumulação da riqueza. Estou cá há pouco tempo, mas já tive tempo de ver o que indigna a minha natureza tártara. Juro por Deus que não quero virtudes dessas! Ontem dei um passeio de duas léguas. Pois bem, é a mesma coisa que nos livros moralizadores alemães, com ilustrações: por todo o lado e em cada casa há um Vater [Pai], terrivelmente virtuoso e incrivelmente honesto. Tão honesto que dá medo aproximarmo-nos dele. Detesto os honestos de quem temos medo de aproximar-nos. Cada um desses Vater tem uma família, e à noite toda a família se junta para ler livros didácticos. Por sobre a casinha restolham os olmeiros e os castanheiros. O pôr do Sol, uma cegonha no telhado, tudo muitíssimo poético e comovente. Não se zangue, general, deixe que lhe conte de modo mais comovente ainda. Lembro-me, eu próprio, como o meu falecido pai, no jardim da frente, debaixo das tílias, lia à noite para mim e para a minha mãe livros desse género... Então, eu próprio posso ajuizar com conhecimento de causa. Portanto, qualquer dessas famílias locais se encontra em escravidão e submissão completa ao Vater. Todos trabalham como bois e acumulam dinheiro como judeus. Por exemplo, o Vater já poupou, digamos, tantos e tantos florins e destina para o filho primogénito o seu ofício ou terreno; para tal, não dá dote à filha, que fica para tia. Para tal, vende também o filho mais novo para a escravidão ou para a tropa, e o dinheiro vai acumular-se ao capital da família. Verdade, é mesmo assim, eu perguntei. Tudo isto é feito exclusivamente por honestidade, por elevada honestidade; chega a tal ponto a honestidade que o filho mais novo, vendido, acredita que o foi exclusivamente por honestidade – aquilo é de facto o ideal, já que a própria vítima fica contente por ser levada ao sacrifício. Que mais? O primogénito não tem uma vida melhor: há uma tal Amalchen, por quem tem um amor mútuo – mas não podem casar-se porque não conseguiram acumular tantos e tantos florins. Ficam à espera também, virtuosa e sinceramente, e vão para o sacrifício com um sorriso. Finalmente, vinte anos passados, o bem-estar multiplicou-se: os florins foram acumulados honesta e virtuosamente. O Vater abençoa o primogénito de quarenta anos e a Amalchen de trinta e cinco, com o peito ressequido e o nariz vermelho... Chora, faz-lhes um sermão e morre. O primogénito torna-se por sua vez um Vater virtuoso, e recomeça a história. Cinquenta ou setenta anos depois, o neto do Vater original acumulou realmente um capital considerável e transfere-o para o filho, que por sua vez o transfere para o seu, e este também para o seu, e num espaço de cinco ou seis gerações resulta disto tudo o próprio barão Rotschild ou Hoppe e C.ª ou sabe Deus quem mais. Pois bem, não será isto um espectáculo majestoso? O trabalho hereditário de cem ou duzentos anos, a paciência, a inteligência, a honestidade, o carácter, a firmeza, o cálculo, a cegonha no telhado? O que mais querem, se não há nada mais sublime do que isto? E a partir deste ponto eles próprios começam a julgar todo o mundo e a executar logo os culpados, isto é, os que sejam diferentes deles minimamente. Então, é o seguinte: prefiro o desregramento à russa, ou então enriquecer jogando à roleta. Não quero ser Hoppe e C.ª daqui a cinco gerações. Preciso de dinheiro para mim próprio, e não me considero uma coisa do tipo apêndice necessário do capital. Sei que acabo de debitar uma série de tolices, mas que assim seja. São as minhas convicções.”

Fiódor Dostoiévski – O Jogador, trad. port., Editorial Presença


1 comment:

Anonymous said...

Não comento o conteúdo do excerto, mas apenas a genialidade do autor. Depois de lida a obra de Dostoievski, passei a ter outra perspectiva do que é a Literatura... Abraço, P (e boas leituras).