Wednesday, February 07, 2007

compromisso

De uma certa forma, a descrença - e não só na religião... - constitui um singelo álibi para escapar ao compromisso, à verdadeira entrega, à convicção irracional. Quem o diz é um ateu.

5 comments:

Anonymous said...

A descrença será, como dizes, «um singelo álibi para escapar ao compromisso, à verdadeira entrega». Já não estou tão certo que permita fugir «à convicção irracional»: primeiro, porque mesmo o que é fundamentado racionalmente pode não ser objecto de crença (numa perspectiva de quase iconoclastia intelectual - tudo pode ser constestado, mesmo a maior evidência, mesmo a existência daquele que pensa); depois, porque mesmo nessa radical postura, muitas são as coisas irracional em que se crê (ainda que inconscientemente). Um homem sem crenças é um homem sem referências... Penso eu - possivalmente mal, sei lá.

O teu amigo P

Dinarte Vasconcelos said...

Porque pode a descrença ser um bom álibi para escapar à convicção irracional? De entre várias razões diria o seguinte: a situação de descrente é, com efeito, a de um iconoclasta, a de alguém que permite-se contestar tudo, toda a informação, todo o sistema. Como pode um ateu não ser um iconoclasta quando contesta a maior crença de todas? - a crença na divindade. Esta contestaçao pode ser plácida ou aguerrida, para o caso pouco importa. O que é fundamentado racionalmente pode, com efeito, não ser objecto de uma crença, de uma fé - e não o é precisamente por ter uma base racional! O racional é a dúvida, como se sabe, é o nunca atingir de uma conclusão, é o nunca parar de pensar, é o escrutinar de todos os mecanismos, de todos os processos. Ora bem, digo que a crença, e não só na religião, requer uma convicção irracional, das que nos empenha, que nos leva a, de modo completo, entregar-nos de corpo e de mente. Ora, isso é compromisso. Se se detestar o compromisso - pelo que, entre outras coisas, ele suga de ímpeto vital - a descrença, primeiro na divindade, há-de ser um bom pretexto para uma posição nihilista, apesar de tudo confortável.
Enfim, não estou certo de te responder, andei às voltas. Mas o importante é o diálogo. Vai dizendo algo.

Anonymous said...

Pergunto: não poderá ser a própria descrença (seja, pois, na divindade) uma outra forma de crença?

P

Dinarte Vasconcelos said...

Pode. Uma crença que obriga a nada!

Anonymous said...

Posso entrar?

Não acredito que a descrença seja «um singélo álibi para escapar ao compromisso, à verdadeira entrega». Simplesmente, pq a sua existência denuncia o seu reverso: a própria crença. Ao estar descrente não estarei, ignorantemente (ou não), a comprometer-me com outra crença?
Agora, será um compromisso que obriga a nada? Digo, será um compromisso mudo e apático?
Sim, pode ser.... O que não nega a sua existência e emergência quando negado ou calcado.
JN ou A.