Saturday, January 20, 2007

[sem título]

Os pontos luminosos
Escalam os vales
Narizes aspergem narinas
De fumos
E nocturnos soturnos
Os acordes guturais
Dos passos dados
(...)

É bom objectivo
Aperfeiçoar os meus acordes
E não só a colher
Mergulhar no fumegante café...
Ver sofregamente os visores
Dos telemóveis
(...)

Os princípios nada são
Os princípios nada são
É no olhar que buscamos
Mesmo nos sem-olhar
Dá-nos o imenso gosto os ímpetos
Dos mutilados
Dos mutilados sociais à primeira vista
(...)

Deixemos por exemplo as espumas
São simples, de bolhas somas
Desaparecem logo e sem assomo
(narizes nauseabundos do café e cigarro)

E e e e e e e e e e
Sendo estas lutas intorpes – mortas
(...)

A colina sobe íngreme – a dor –
Aos céus
Com seus pontos e risos luminosos
Belos, dengosos – horrorosos
E a bela semi-loira
Com curvas a matar
– e a dar –
O olhar vazio e de vazios a buscar
Os seus assomos e o meu – de amar
(...)

Ao cimo, sobe íngreme a colina
Não a conheço – mas não a preciso ver
(...)

Nunca pensei que não tivesse jeito
Para poemas
E contemplo os olhos – olhos
Das velhotas a morrer –
Perecem nada sentir, dissecam
Dissecam, saboreiam as réstias
De mundo para elas a haver
Devagar, muito d e v a g a r
(...)

Hoje não se almeja os ofícios de outrora
A alma em lado nenhum agora mora
E esvai-se nas baforadas e dedos apontados
[com os dedos e mãos fala-se mais que pela boca]
Pela boca vive-se
Pelas mãos fala-se

E deste transtorno sinfónico
A sinfonia dos transtornos
Deste simples, vulgo, abandono
Destes sítios, pedras sem dono
Óculos túmidos, funéreos, nada vendo
Por detrás os olhos – e dedos – com sono
(...)

Este diabo de música de fundo
As ideias que se esvaem
Esvaindo saem do mundo
O papel é um bom instrumento
Mas a alienação espreita
Na alvura luminosa dos fios de madeira
Nem que seja pela morte das raízes do mundo
(...)

Apeteceu-me telefonar a uma velha amiga
Uma velha amiga – como esta
Um velho amor de trevas em pendor
(nada de dor, nada de dor), um rumor –
É o que é – uma amiga velha
Dele sobra o que a racionalidade deixa
Nada que nada, cinza centelha
Pena é que por vezes vislumbro ainda
Um corpo ameixa
E ninho de um fértil cultivo de tudo
Ou apenas de mim

Ao telefonar-lhe
Balanceiam-me as entranhas
“Folhear o telemóvel (...)
Teu nome surgiu”
Algumas piadas
“Mas isso são banalidades”
Brincadeiras sarcásticas
Troca dos instrumentos das hodiernas tecnologias
Banalidade...
“Quando é que te casas?”
Situação de imprevisto
Outras pessoas
“O Natal já lá foi?”
Vazio... vazio
A meninice das posturas
Misturada em uma mescla
De maturidades fabricadas
São palavras perdidas
(perderam-se ao mesmo tempo
que os sentimentos –
e nada mais sonoro, estridente, cortante
que amizade pode nesta se tornar)

Mais uma sessão
vívida sessão de conversa
Com os íngremes pontos luminosos
Por aí

[2004]
 

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