Saturday, January 20, 2007

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça



A casa onde vou afinal é tão perto
da que quero - pela tarde
no mundo
o meu sangue é o conduto de tudo
reúno estes alguidares vazios
mas a hemorragia é preguiçosa há já algum tempo

Eu durmo na aluvião, ao lado dos meus antepassados
um destino não se cumpre
entre as cicatrizes e o ânimo
o trajecto não o percorro: a noite é poderosa
sobre as minhas cândeias

Tivesse tempo e pedia
as tuas mãos

Dinarte Vasconcelos

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