Tuesday, November 14, 2006

devaneio em crónica

Quem me conhece sabe que sou louco. Melhor escrevendo, quem me conhece sabe que pareço louco, e que nada faço para afastar esse juízo apressado mas com alguns foros de verdade.
O corpo tem-me feito crer que precisa de alguma manutenção. Poupo ao leitor o conhecimento das formas grotescas pelas quais este meu amigo tem se queixado do seu estado, ainda decorrido apenas pouco mais de um quarto de século. Vai daí, uns minutitos de passeio por dia, ou dia sim dia não, valem de lembrança de que sou finito – eu que pensava que havia de durar para sempre, com ou sem carne de vinho e alhos degustada prodigamente.
Amenizo esta minha tortura através da leitura – hábito e gosto que constitui, também, à sua maneira, uma tortura. Explico-me de modo conveniente, para evitar equívocos escorregadios: encontrei na literatura, caro leitor, um prazer que é apenas – e basta: e já não é pouco! – um convencionalismo social. Não obstante, como todos os convencionalismos sociais, é inexpugnável como uma fortaleza.
Adiante, antes que a loucura desponte. O que queria apenas dizer, ainda que não saiba se vá encontrar forma de o transmitir, ou de o escrever de forma competente, ou sequer coloquial (já me dou por contente, na verdade, se não houver gralhas e solecismos) – o que queria dizer, dizia eu, é que, se um homem – ou mulher – munido de livro (e a ler!) já é olhado com desconfiança pelo vulgo – eu diria o português comum, mas isso soaria ofensivo, pois claro –, imagine-se então um indivíduo como eu a ler enquanto... ando. A imagem, imagino, será engraçada. Uma das minhas mãos gigantescas serve de estante a um cartapácio, se necessário for, e vou trilhando, quase que por instinto, a calçada, asfalto, cimento, jardim, o que por acaso decorrer sob os meus pés. No mínimo, assemelhar-me-ei a um profeta, e a barba do desmazelo ajudará a esta consideração. O leitor atirará, porventura: “Desconfiança é muito forte!” É, então não é!
Pronto, concedo, desconfiança poderá ser zelo maior da minha parte na descrição. Por agora, contudo, fica assim escrito pois estou com pressa e nesta altura da vida tanto se me dá como tanto se me deu se for acusado de juízos apressados.
Tudo isto para expressar qualquer coisa sobre o acto de ler, e da sua importância – o que queria dizer perdeu-se por uma qualquer vereda, mas não era, decerto, nada daquilo que se ouve por aí: “Ah, e tal, ler um livro pode mudar a nossa vida, e tal, e não sei o que mais...”. Nada disso, ler é, por exemplo – digo “por exemplo” para manter as minhas hipóteses em aberto – um modo de construirmos ferramentas que permitam interpretar os ruídos que nos chegam do que nos rodeia (o leitor estava à espera de uma melhor utilidade para o acto de ler? Paciência. Tenho direito à minha dose de banalidade!).
Que se olhe com desconfiança (ok, tá certo, com indiferença desconfiada, sem falar no potencial escárnio) para isso – é algo que não deixa de ser engraçado. Engraçado porque, no mais, haverá aqui uma “batalha” entre comportamentos, convenções!, sociais.
Para alguns ler é sinónimo automático – diria até autómato – de cultura, de saber; há dias, por exemplo, procedia a uma leitura em plena paragem de autocarro, e um turista, parece, arrepiou caminho entre várias pessoas: e a mim, foi a mim que pediu umas banais informações. Ler: sinónimo imediato, pois, de cultura. Claro...
No outro lado da barricada: ler – sinónimo, sinal, símbolo até, de sobranceria, de arrogância, de saber, ora bem!, mas saber daqueles que “têm a mania”. Claro...
Dir-se-á que isto é muito para se escrever acerca de alguém considerado louco por ter o mau hábito de ler enquanto caminha; melhor, que é muito e exagerado! Concedo, mas quanto a isso remeto apenas para a primeira frase deste escrito.

2 comments:

Anonymous said...

Ao ler o teu devaneio escrito, não pude deixar de me lembrar da nossa conversa sobre livros ao almoço (algures no centro do país)... e pensar que, pela minha parte, talvez essa necessidade de ler se tenha quase transformado numa religião... e que me seja impossível, como a um crente sem Deus, conceber a vida sem livros...

Grande abraço e parabéns pela partilha,

P

Dinarte Vasconcelos said...

Meu amigo
Aceita um forte abraço das ilhas

Dinarte